Os bastidores do setor criativo ainda são territórios de exclusão
Publicado: 15 maio, 2025

As imagens que circulam no marketing, no audiovisual e na mídia moldam parte significativa do imaginário coletivo. Quem aparece nas telas, quais histórias ganham legitimidade, quem tem o direito de narrar: tudo isso influencia diretamente como construímos identidade, pertencimento e desejo. Em um país como o Brasil, com sua potência criativa e diversidade cultural, seria natural imaginar uma cadeia produtiva que refletisse essa pluralidade em toda a sua complexidade. Mas a realidade está longe disso.

De acordo com o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro (2023), mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência e moradores de territórios periféricos seguem à margem, não apenas das telas, mas dos espaços de liderança, criação e produção.

Esse problema não é exclusivo do audiovisual. Ele se repete na publicidade e no marketing brasileiro. Segundo o II Censo de Diversidade das Agências Brasileiras (2024), do Observatório da Diversidade na Propaganda, mulheres representam 57,9% da força de trabalho nas agências, mas ocupam apenas 33,2% dos cargos de liderança. A desigualdade se intensifica quando observamos o recorte racial: pessoas negras são 22,3% dos profissionais, mas estão em apenas 9,1% das lideranças e 7,7% das equipes de criação. Pessoas LGBTQIAPN+ formam 14,9% do setor, mas representam apenas 5,7% nas lideranças. Indígenas somam 0,6% e pessoas com deficiência, apenas 0,8%.

Em paralelo, o mercado de marketing de influência expõe com nitidez a desigualdade racial na economia criativa. O estudo “Black Influence: Um retrato dos creators pretos no Brasil”, realizado por Black Influence, Mundo Negro, YOUPIX, Squid e Sharp, revelou que influenciadores negros ganham, em média, até 10 vezes menos do que influenciadores brancos. O relatório destaca que, mesmo com alto engajamento e relevância social, creators negros enfrentam barreiras sistêmicas no acesso a campanhas, orçamentos e visibilidade, sendo frequentemente preteridos ou contratados apenas em datas comemorativas. A pesquisa também aponta que 76,6% desses profissionais já deixaram de fechar contratos por conta de posicionamentos sobre raça ou questões sociais, reforçando como o mercado ainda penaliza vozes que desafiam o status quo.

Tudo isso é reflexo de um país forjado sob a lógica da concentração de recursos simbólicos, culturais e econômicos. O setor criativo, ainda que vendido como moderno e inovador, segue preso a modelos elitistas, que concentram recursos, saberes técnicos, rede de contatos e reconhecimento em um único perfil: homens brancos, cisheteronormativos, geralmente oriundos do centro-sul urbano e com herança de classe. A consequência é uma indústria que comunica para muitos, mas continua sendo criada por poucos. E que segue reproduzindo estéticas e narrativas que excluem a maioria da população brasileira.

Há quem diga que já avançamos muito. Que a representatividade está “melhorando”. Que agora “temos mais diversidade”. Mas presença não é permanência. E visibilidade, sozinha, não equivale a autoria. A simples aparição de corpos diversos nas telas não resolve as desigualdades estruturais que afetam as engrenagens da indústria.

Esse raciocínio vale para as agências que se dizem progressistas, mas seguem contratando os mesmos nomes. Para as produtoras que comemoram datas simbólicas, mas continuam invisibilizando profissionais trans, negros e periféricos. O futuro da comunicação, se quiser ser relevante, precisa começar pela escuta real da pluralidade que já existe, mas que ainda espera ser contratada, reconhecida e respeitada.

Quando a cadeia de produção ignora esses dados, reforça um sistema simbólico que silencia a maioria e legitima a centralização. Porque quem comunica também estrutura imaginários. E a comunicação, se não for acompanhada de revisão profunda nos processos internos, continuará sendo ferramenta de manutenção de desigualdades, ainda que embalada em campanhas de “diversidade”.

Quando os territórios produzem a mudança

É nesse ponto de inflexão que surgem movimentos capazes de hackear o sistema. Em contracorrente à lógica excludente que domina o setor, em diferentes regiões do país, coletivos periféricos, produtoras independentes e redes culturais estão ocupando o mercado com outra lógica: de base, de território, de partilha e de autoria coletiva. São iniciativas que não pedem licença ao centro, mas criam outros caminhos, mais generosos, mais ousados, mais conectadas com o país real.

É o caso do Cinema é Ralação, idealizado pelo cineasta negro e periférico Leonardo Monteiro (LeoMon) da Cinese Audiovisual, realizado em parceria com a Candiá Produções e Aicon Ações Cinematográficas, na periferia da capital federal. O projeto oferece formação técnica gratuita em funções historicamente negadas a grupos sub-representados, como elétrica, câmera, maquinária e som direto, com estrutura acessível e políticas de acolhimento que garantem a permanência de mulheres, mães solo, pessoas negras, periféricas, com deficiência e LGBTQIAPN+.

Outra experiência que rompe silêncios históricos é a da TV Quilombo Rampa, criada pelos jovens quilombolas Raimundo José e seu primo William Cardoso no povoado Rampa, interior do Maranhão. Cansados da invisibilidade imposta pela mídia tradicional, decidiram criar seu próprio sistema de comunicação comunitária. Com câmeras feitas de papelão, microfones improvisados com gravetos e um celular simples, passaram a registrar o cotidiano, as tradições e os desafios do quilombo fundado há mais de dois séculos. O que começou como uma brincadeira se tornou ferramenta de resistência, visibilidade e afirmação identitária. Hoje, a TV se expandiu com a Rádio Quilombo 105.9 FM, e o projeto sonha com a construção de um centro cultural que una audiovisual, memória e futuro, sempre com o povo quilombola no centro da sua própria narrativa. 

Na mesma direção, a Agência Zagaia,projeto idealizado pela Justiça nos Trilhos, atua como uma rede de comunicadoras e comunicadores indígenas, quilombolas e de povos e comunidades tradicionais, promovendo a autonomia comunicacional como direito e estratégia política. A Zagaia não apenas amplia vozes, mas afirma a comunicação como campo de disputa por permanência, território e justiça.

Essas iniciativas provam que outra forma de produzir é possível, uma forma que não se limita a “dar visibilidade”, mas devolve autoria. Elas não representam apenas casos de sucesso, representam caminhos. Caminhos que, para florescer, precisam de compromisso institucional com estruturas mais inclusivas, investimento contínuo em formação técnica e criativa, redistribuição real de poder simbólico e econômico.

Porque não haverá diversidade real enquanto as histórias continuarem sendo dirigidas – e monopolizadas – por quem sempre teve o privilégio de narrá-las.

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, atua no mercado desde 2008, desenvolvendo projetos que conectam cultura, comunicação popular, meio ambiente, direitos humanos e empreendedorismo.

Em 2016, fundou a Candiá Produções, agência 360º voltada para o terceiro setor e causas socioambientais, criando estratégias personalizadas que geram soluções assertivas e experiências memoráveis para marcas, empresas e organizações.

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