Patrimônio é gente: o Brasil que resiste na ponta dos dedos dos brincantes
Publicado: 17 ago, 2025

Neste 17 de agosto, celebramos o Dia Nacional do Patrimônio Cultural. A data foi instituída em homenagem ao nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador do IPHAN, e vem ganhando novos sentidos à medida que a noção de patrimônio se expande no Brasil. Hoje, mais do que igrejas barrocas, fortes coloniais ou casarões tombados, o país reconhece como patrimônio seus saberes, festas, formas de expressão e modos de viver. Bens culturais de natureza imaterial que sobrevivem não em pedra, mas em carne, voz e memória.

Um dos exemplos mais vibrantes dessa expansão é o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste, o mamulengo. Reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil em 2015 e, desde 2008, incluído pela Unesco no Inventário Internacional das Expressões de Teatro de Bonecos, o mamulengo é uma manifestação popular de raízes profundas e ramificações vastas. Herdeiro de tradições europeias e africanas, enraizado nas feiras nordestinas e nos quintais do sertão, ele é mais do que uma forma de teatro: é um ritual de crítica, encantamento e resistência.

Ao contrário do que o nome pode sugerir, o mamulengo não é um objeto, mas um sistema cultural vivo. É encenado por mestres bonequeiros, artistas populares, muitas vezes autodidatas que escrevem, esculpem, costuram, cantam, improvisam e encenam num único gesto. Gesto esse que, além de poético, é político: como afirma o agente cultural e cineasta LeoMon, “o mamulengo é a voz do povo por trás de um pano. As narrativas do mamulengo tocam temas universais e urgentes: desigualdade, fé, violência, morte, ancestralidade, alegria. E, mais do que tudo, ensinam a rir de quem oprime. Nesse gesto reside sua potência política e sua atualidade.

Esses mestres são, portanto, patrimônio vivo do Brasil. São portadores de conhecimentos que não cabem em currículos escolares, mas que ensinam muito: sobre pertencimento, ancestralidade, coletividade e imaginação política. Proteger o mamulengo é proteger esses mestres. E isso exige mais do que reconhecimento simbólico, exige políticas públicas estruturantes e duradouras.

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Salvaguarda e fomento à cultura

Criado em 1937, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) começou sua trajetória como guardião de monumentos e construções, mas foi aos poucos se reinventando. Com a Constituição de 1988 e, mais tarde, com a criação do Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial (em 2000), o IPHAN passou a incorporar práticas, saberes e celebrações ao seu escopo de proteção.

Desde então, 57 bens imateriais já foram registrados, entre eles o samba de roda do Recôncavo Baiano, o ofício das baianas de acarajé, o jongo do Sudeste e o sistema agrícola tradicional do Rio Negro. O mamulengo soma-se a essa lista como exemplo do Brasil plural e profundo que resiste nas mãos de quem nunca teve vez nos salões de mármore, mas molda a memória do país em madeira, pano e barro.

Mas, sem orçamento e continuidade, a proteção se torna simbólica. A própria política de registros do IPHAN, embora rica, enfrenta dificuldades para garantir salvaguardas reais: formação, pesquisa, apoio financeiro e condições dignas para mestres e comunidades garantirem a sobrevivência e a circulação dessas expressões. 

Projetos como o filme “A Maldição do Mamulengo” existem apesar dessas fragilidades, sustentados por políticas culturais como os sistemas estaduais de cultura, a Lei Rouanet, e, mais recentemente, os mecanismos emergenciais como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, que têm permitido que novas narrativas ocupem as telas e os circuitos de exibição. Essas políticas não são benesses: são ferramentas de redistribuição simbólica, cultural e econômica, que promovem cidadania e fortalecem economias locais. É por esse caminho que o mamulengo, por exemplo, pode chegar a públicos distantes dos terreiros onde nasceu. 

Dirigido por LeoMon e Alice Lira, com apoio da Lei Paulo Gustavo no Distrito Federal, “A Maldição do Mamulengo” percorre o DF, Goiás e Pernambuco, não para “documentar” os mestres, mas para criar com eles. Reunindo figuras como Mestre Calú, Zé de Bibi e Tonho de Pombos, o filme é uma homenagem em forma de linguagem popular, onde a câmera aprende com o boneco e o roteiro se curva à oralidade dos brincantes.

A produção é também um retrato do poder do cinema descentralizado: realizado em parceria com mestres e comunidades, protagonizado por vozes populares e impulsionado por mulheres, pessoas negras, periféricas e LGBTQIAPN+. Trata-se de um gesto político de escuta e reconhecimento, e também de um ato de amor ao Brasil que existe fora do eixo hegemônico.

Celebrar o Dia do Patrimônio não é apenas reverenciar o passado. É um ato de compromisso com o presente e com o futuro. É entender que o Brasil se refaz a cada feira onde uma tolda é montada, a cada brincadeira que ensina resistência, a cada mestre que transmite seu saber sem jamais ter entrado numa universidade.

Que as políticas públicas sigam fortalecendo esse tecido cultural que nos sustenta. E que nós, enquanto sociedade, sejamos capazes de reconhecer, proteger e valorizar o patrimônio mais essencial de todos: o humano, o popular, o vivo.

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Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, atua no mercado desde 2008, desenvolvendo projetos que conectam cultura, comunicação popular, meio ambiente, direitos humanos e empreendedorismo.

Em 2016, fundou a Candiá Produções, agência 360º voltada para o terceiro setor e causas socioambientais, criando estratégias personalizadas que geram soluções assertivas e experiências memoráveis para marcas, empresas e organizações.

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