A COP30, que será realizada no Brasil, coloca o país diante de uma oportunidade histórica. Pela primeira vez, uma conferência global sobre o clima acontece em solo brasileiro em um momento em que a crise ambiental já é também uma crise de segurança. A emergência climática deixou de ser apenas um desafio ambiental: tornou-se um fator central de soberania, estabilidade e defesa nacional.
Os impactos do aquecimento global afetam diretamente as bases que sustentam o funcionamento dos Estados. Enchentes, secas e desastres naturais provocam deslocamentos populacionais, comprometem o abastecimento de energia e alimentos, desestruturam economias locais e ampliam desigualdades sociais. Cada evento extremo pressiona instituições públicas, aumenta gastos emergenciais e ameaça a coesão social. Em um cenário como esse, o clima se torna uma variável de segurança.
Diversos países já incorporaram esse entendimento em suas políticas de defesa e diplomacia. Os Estados Unidos, a União Europeia e nações do Sudeste Asiático tratam as mudanças climáticas como multiplicadoras de riscos, sejam eles econômicos, humanitários ou estratégicos. No Brasil, essa compreensão avança de forma mais recente, mas urgente. Um país com a dimensão territorial e a diversidade socioambiental do nosso não pode se dar ao luxo de tratar o clima como pauta setorial.
A Amazônia, nesse contexto, é o ponto mais sensível e simbólico. Ela concentra não apenas uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, mas também uma das principais fontes de estabilidade climática global. O desmatamento e a degradação ambiental da região têm efeitos que ultrapassam suas fronteiras, interferindo no regime de chuvas, na segurança hídrica e na própria capacidade produtiva do país. Ao mesmo tempo, a floresta é um território de disputas políticas, econômicas e geopolíticas. O que acontece na Amazônia hoje define parte do papel que o Brasil terá no mundo nas próximas décadas.
Durante o curso “Mudança do Clima e as Agendas de Segurança e Defesa”, promovido pela Escola Soberania e Clima, especialistas do Ministério das Relações Exteriores, das Forças Armadas, da ONU e da academia discutiram como o país pode se preparar para esse novo tempo. As conclusões apontam para um consenso: o Brasil precisa de uma visão estratégica e duradoura para integrar meio ambiente, defesa e desenvolvimento. É preciso incorporar o risco climático à formulação de políticas públicas e transformar o conhecimento em ação concreta.
Essa nova abordagem exige articulação entre diferentes áreas do Estado e da sociedade. Envolve repensar planos de segurança nacional, políticas energéticas, agricultura, planejamento urbano e infraestrutura. Também passa pela cooperação internacional, seja para o financiamento de tecnologias limpas, seja para a proteção de biomas estratégicos. Mais do que nunca, a segurança climática depende da diplomacia, da ciência e da educação.
E é nesse ponto que o Brasil tem uma vantagem comparativa importante: a capacidade de liderar pela formação e pelo conhecimento. Iniciativas como a Escola Soberania e Clima e o Centro Soberania e Clima vêm construindo um espaço de diálogo qualificado entre academia, defesa, diplomacia e sociedade civil. Ao promover cursos, estudos e debates públicos, essas instituições contribuem para formar uma geração capaz de compreender e responder aos desafios complexos da emergência climática.
A COP30 será um marco. Mas sua relevância não se medirá apenas pelos acordos firmados ou pelas metas de carbono anunciadas. O verdadeiro legado estará em como o Brasil e o mundo incorporarão a dimensão da segurança climática às suas decisões políticas e sociais.
Não há soberania possível sem estabilidade ambiental. E não há estabilidade sem conhecimento. O desafio que temos pela frente é transformar informação em estratégia, ciência em política pública e formação em preparo coletivo. O futuro exige isso, e ele já começou.
Por Valéria Amorim, Mariana Plum e Idayane Ferreira.








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