Como adaptar peças de comunicação para acessibilidade digital
Publicado: 7 set, 2026

Quando uma imagem não pode ser interpretada por uma pessoa que utiliza leitor de tela, quando um vídeo depende exclusivamente do áudio, quando informações importantes são diferenciadas apenas por cores ou quando um PDF aparentemente simples se transforma em uma sequência incompreensível para uma tecnologia assistiva, não estamos diante apenas de um problema técnico.

Estamos diante de uma barreira de comunicação.

E essa diferença é importante.

Durante muito tempo, acessibilidade foi tratada como uma etapa posterior à criação: primeiro o projeto era concebido, desenhado, filmado, diagramado e publicado; depois, se houvesse orçamento, tempo ou exigência contratual, alguém tentaria “torná-lo acessível”.

Esse modelo produz retrabalho e, com frequência, soluções incompletas.

Uma comunicação verdadeiramente acessível parte de outro princípio: as diferentes formas de perceber, compreender e interagir com um conteúdo precisam ser consideradas desde a concepção.

No Brasil, essa discussão diz respeito a milhões de pessoas. Os resultados preliminares da amostra do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE em 2025, apontaram 14,4 milhões de pessoas com deficiência entre a população de dois anos ou mais, o equivalente a 7,3% desse universo. Uma pesquisa anterior, a PNAD Contínua 2022, havia estimado 18,6 milhões, ou 8,9%, a partir de metodologia distinta. Por isso, é importante evitar a repetição do antigo dado de “quase 25% da população” sem explicar a fonte, o período e os critérios empregados.

Mas mesmo esses números não esgotam a questão.

A acessibilidade beneficia também pessoas idosas, pessoas com limitações temporárias, pessoas com diferentes condições de leitura e compreensão, quem utiliza tecnologias assistivas e até pessoas submetidas a situações circunstanciais — como assistir a um vídeo sem som, navegar utilizando apenas o teclado ou tentar ler uma informação sob iluminação inadequada.

Por isso, discutir acessibilidade digital é discutir qualidade da comunicação.

O que é acessibilidade digital?

Acessibilidade digital é a criação de ambientes, conteúdos, sistemas e experiências digitais que possam ser percebidos, compreendidos e utilizados pelo maior número possível de pessoas, incluindo pessoas com diferentes deficiências.

Isso envolve muito mais do que instalar um recurso de acessibilidade em um site.

Envolve texto.

Imagem.

Vídeo.

Áudio.

Design.

Código.

Arquitetura da informação.

Linguagem.

Documentos.

Interfaces.

Atendimento.

E, sobretudo, decisões tomadas ao longo do processo de comunicação.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015 — define acessibilidade de maneira ampla, incluindo o acesso à informação, à comunicação, aos sistemas e às tecnologias. A própria legislação identifica como barreiras na comunicação e na informação os obstáculos que dificultam ou impedem a expressão ou o recebimento de mensagens.

Essa formulação é especialmente relevante porque desloca a discussão.

O problema não está na pessoa que “não consegue acessar” determinado conteúdo.

O problema está na barreira construída pelo ambiente, pela tecnologia ou pela própria comunicação.

Quando um conteúdo só funciona para quem enxerga determinada informação, ouve determinado áudio, utiliza um mouse com precisão ou consegue interpretar uma linguagem excessivamente complexa, é a estrutura comunicacional que estabeleceu as condições de exclusão.

Acessibilidade é direito – não gentileza

Há uma tendência de apresentar acessibilidade como demonstração de sensibilidade ou responsabilidade social.

Ela é tudo isso, mas não apenas.

Acessibilidade está relacionada ao exercício de direitos.

O artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão determina a acessibilidade nos sites mantidos por empresas com sede ou representação comercial no país e por órgãos públicos, orientando que sejam observadas as melhores práticas e diretrizes internacionalmente adotadas.

A legislação brasileira também trata de recursos como legendagem, Libras e audiodescrição no acesso à informação e à comunicação. Desde 2024, a LBI determina expressamente que campanhas sociais, preventivas e educativas sejam acessíveis às pessoas com deficiência.

Para organizações da sociedade civil, projetos culturais, instituições públicas, coletivos, movimentos, empresas e iniciativas de impacto, existe ainda uma questão fundamental: não faz sentido defender participação social enquanto a própria comunicação impede parte da sociedade de participar.

A acessibilidade precisa ser coerente com a missão institucional.

WCAG 2.2: uma das principais referências para acessibilidade digital

Uma das referências internacionais mais importantes para acessibilidade na web são as Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), desenvolvidas pelo World Wide Web Consortium, o W3C.

A versão WCAG 2.2 tornou-se Recomendação do W3C em outubro de 2023 e recebeu uma tradução autorizada para o português brasileiro em março de 2025. O próprio W3C recomenda a utilização da versão mais atual das diretrizes na criação e atualização de políticas e produtos digitais.

As WCAG 2.2 organizam suas recomendações em quatro princípios fundamentais.

Um conteúdo precisa ser perceptível, ou seja, as informações devem poder ser percebidas de diferentes formas.

Precisa ser operável, permitindo que diferentes pessoas consigam navegar e interagir.

Precisa ser compreensível, tanto em relação à informação quanto ao funcionamento da interface.

E precisa ser robusto, para que possa ser interpretado de maneira confiável por diferentes tecnologias, incluindo tecnologias assistivas.

Esses princípios são uma boa maneira de compreender que acessibilidade não corresponde a uma lista de ajustes isolados.

Ela é uma característica do sistema.

A própria WCAG reconhece que suas diretrizes não contemplam todas as necessidades de todas as pessoas com deficiência. Portanto, conformidade técnica é importante, mas não substitui escuta, avaliação humana e participação de pessoas com diferentes experiências de uso.

Na Candiá, já aprofundamos essa discussão no artigo Acessibilidade digital como compromisso coletivo: nova tradução oficial das diretrizes WCAG 2.2 reforça urgência por uma web mais inclusiva.

Como adaptar imagens e peças gráficas para acessibilidade?

Uma peça gráfica pode ser visualmente sofisticada e ainda assim possuir graves barreiras de acesso.

Isso acontece porque design acessível não depende apenas da aparência de uma peça, mas da forma como a informação está organizada e das alternativas oferecidas para quem não consegue percebê-la da maneira originalmente projetada.

Texto alternativo não é legenda de fotografia

O chamado texto alternativo, ou alt text, fornece uma alternativa textual à informação presente em uma imagem.

Em páginas web, esse conteúdo pode ser interpretado por leitores de tela e outras tecnologias assistivas.

Mas existe um equívoco frequente: acreditar que toda imagem deve receber uma descrição extensa.

Não é assim.

A descrição precisa responder à função que aquela imagem exerce no contexto.

Se uma fotografia comunica informação relevante, o texto alternativo deve transmitir aquilo que é importante para compreender o conteúdo.

Se a imagem funciona como botão ou link, a alternativa precisa indicar sua função.

Se contém um gráfico complexo, uma pequena frase geralmente não será suficiente: os dados relevantes precisam estar disponíveis também de forma textual.

Se a imagem for estritamente decorativa em uma página web, a recomendação pode ser justamente usar um atributo alt vazio, permitindo que tecnologias assistivas a ignorem. O W3C possui inclusive uma árvore de decisão específica para orientar esse processo.

Também não existe uma regra absoluta de que seja proibido escrever “foto de” ou “imagem de”.

Na maioria dos contextos, essa informação pode ser redundante porque a tecnologia assistiva já identifica o elemento como imagem. Entretanto, há situações em que saber que se trata de uma fotografia, ilustração, reprodução de obra, mapa ou infográfico faz parte da informação relevante.

A pergunta correta não é “qual fórmula devo usar?”.

É:

o que uma pessoa precisa saber sobre esta imagem para compreender o mesmo conteúdo ou cumprir a mesma função?

Essa é uma abordagem muito mais consistente do que simplesmente transformar todos os elementos visuais em descrições mecânicas.

Evite colocar toda a informação dentro de uma imagem

Cards para redes sociais são um exemplo clássico.

Um designer pode criar uma arte contendo título, data, horário, endereço, programação, nomes de participantes, regras de inscrição e chamadas para ação.

Visualmente, tudo está ali.

Para alguém que não consegue acessar o conteúdo visual da imagem, talvez não esteja.

Por isso, informações essenciais de uma peça gráfica devem estar disponíveis também como texto.

Nas redes sociais, isso pode significar utilizar os recursos nativos de descrição alternativa quando disponíveis e reproduzir na legenda as informações indispensáveis.

No site, textos importantes não deveriam existir exclusivamente como imagem sempre que houver possibilidade de apresentá-los semanticamente em HTML.

O princípio é simples: o acesso à informação não pode depender exclusivamente da percepção visual de uma peça.

Contraste não é preferência estética

Contraste é um dos pontos em que decisões de identidade visual e acessibilidade frequentemente entram em conflito.

Textos em tons muito próximos ao fundo podem parecer elegantes em determinadas telas e se tornar praticamente ilegíveis para pessoas com baixa visão, dificuldades relacionadas à percepção de contraste ou mesmo para alguém utilizando um celular em condições ruins de iluminação.

A WCAG 2.2 estabelece, no nível AA, uma relação de contraste mínima de 4,5:1 para textos de tamanho regular e 3:1 para textos grandes, com algumas exceções específicas.

Isso não significa que marcas precisam abandonar suas identidades visuais.

Significa que sistemas de identidade deveriam prever combinações cromáticas adequadas para diferentes situações de uso.

Acessibilidade não deveria ser tratada como algo que “estraga o layout”.

Quando uma identidade visual só funciona violando condições básicas de legibilidade, existe um problema de design — e não de acessibilidade.

Cor não pode ser a única informação

Imagine um gráfico em que crescimento aparece apenas em verde e queda apenas em vermelho.

Ou um formulário no qual campos incorretos são identificados exclusivamente por uma borda vermelha.

Para algumas pessoas com alterações na percepção de cores, essa diferenciação pode desaparecer.

É possível manter a cor como recurso visual, mas ela precisa ser acompanhada por outros sinais.

Um gráfico pode utilizar rótulos, formas, padrões e descrições.

Uma mensagem de erro pode utilizar texto e um ícone compreensível.

A acessibilidade não exige retirar informação visual.

Exige evitar que ela exista em apenas uma modalidade.

Tipografia também é acessibilidade

Fonte pequena, baixo espaçamento entre linhas, blocos extensos de texto, alinhamentos difíceis de acompanhar e grande quantidade de estilos tipográficos podem criar barreiras para pessoas com baixa visão, dislexia, dificuldades cognitivas ou simplesmente para quem está lendo em uma tela pequena.

Legibilidade deveria ser entendida como critério funcional.

Isso envolve tamanho adequado, contraste, hierarquia tipográfica coerente, boa distância entre elementos e quantidade razoável de informação por bloco.

Em ambientes web, também é importante permitir ampliação do conteúdo sem perda de informação ou funcionalidade. A WCAG 2.2 estabelece critérios relacionados à possibilidade de redimensionar textos em até 200%.

Como tornar carrosséis e posts de redes sociais mais acessíveis?

As redes sociais introduzem desafios particulares porque as equipes não controlam toda a arquitetura da plataforma.

Ainda assim, há bastante espaço para tornar a experiência melhor.

Um carrossel precisa ser compreendido como uma sequência narrativa, não apenas como várias imagens.

A ordem deve fazer sentido.

Os slides precisam ter boa legibilidade.

O excesso de informação precisa ser evitado.

Textos presentes exclusivamente nas artes devem ser disponibilizados também em formato textual.

A descrição de imagens deve considerar aquilo que acrescenta significado.

E conteúdos que dependem de códigos como cor, posição ou setas precisam possuir alternativas compreensíveis.

Também é importante observar emojis e caracteres especiais.

A repetição excessiva de símbolos pode produzir uma experiência cansativa para quem utiliza leitura sintetizada.

Da mesma forma, recursos tipográficos criados a partir de caracteres Unicode podem parecer visualmente interessantes, mas serem lidos de maneira inesperada por tecnologias assistivas.

A pergunta precisa continuar sendo a mesma: como essa mensagem será percebida quando a experiência visual não estiver disponível da maneira que imaginamos?

Vídeos acessíveis: legenda não resolve tudo

O audiovisual reúne, simultaneamente, diferentes camadas de informação.

Imagem.

Fala.

Música.

Som ambiente.

Texto na tela.

Expressão corporal.

Montagem.

Cenografia.

Por isso, tornar um vídeo acessível exige compreender quais informações estão em cada uma dessas camadas.

Um vídeo com legendas pode continuar inacessível para uma pessoa cega.

Um vídeo com audiodescrição pode continuar inacessível para uma pessoa surda.

Um vídeo com janela de Libras pode não atender uma pessoa surda que utiliza prioritariamente a língua portuguesa escrita.

Os recursos não são intercambiáveis.

Eles respondem a necessidades diferentes.

Legendas acessíveis

Legendas acessíveis precisam representar a informação sonora necessária à compreensão do conteúdo.

Isso significa que, além das falas, pode ser necessário identificar quem está falando e indicar sons, música ou outros acontecimentos sonoros relevantes.

O próprio W3C faz essa distinção: captions não correspondem apenas à transcrição das falas, porque também incluem informações sonoras não verbais necessárias para entender a mídia.

É também por isso que legendas automáticas precisam de revisão humana.

Nomes próprios, termos técnicos, regionalismos, sobreposição de vozes e qualidade de áudio produzem erros frequentes nos sistemas automáticos.

Automação pode ajudar.

Não deve ser confundida com qualidade final.

O que é audiodescrição?

Audiodescrição é um recurso que transforma informações visuais relevantes em informação sonora.

Ela pode apresentar ações, mudanças de cena, características dos personagens, elementos gráficos, textos exibidos na tela e outras informações visuais necessárias à compreensão.

Quando planejada desde o roteiro e a pré-produção, a audiodescrição pode ser incorporada com mais naturalidade ao projeto.

O próprio W3C observa que considerar a descrição visual antes da produção pode reduzir significativamente custo e esforço, porque determinadas informações podem ser incorporadas à própria narração ou linguagem do vídeo.

Esse ponto é especialmente importante para produtoras e organizações culturais.

Não se trata apenas de pegar um produto finalizado e encaixar uma voz nos poucos segundos silenciosos disponíveis.

Um audiovisual concebido com acessibilidade permite pensar antecipadamente em roteiro, ritmo, pausas, enquadramentos, versões e distribuição.

A Candiá aprofunda esse tema em Dicas de audiovisual acessível para projetos culturais, conteúdo dedicado à integração de recursos de acessibilidade em produções culturais.

E a Libras?

A Língua Brasileira de Sinais é uma língua reconhecida legalmente no Brasil e possui estrutura linguística própria.

Para uma parcela da comunidade surda, Libras é a principal língua de comunicação.

Por isso, oferecer interpretação em Libras pode ser essencial em diferentes conteúdos e contextos.

Mas inserir uma pequena janela com uma pessoa intérprete no final da produção não significa, por si só, que todas as decisões de acessibilidade foram resolvidas.

É necessário pensar em dimensões como enquadramento, posição da janela, contraste, velocidade do conteúdo, sincronização e condições reais de visualização.

Além disso, Libras e legenda não cumprem exatamente a mesma função.

A construção de um conteúdo acessível pode demandar recursos combinados.

A decisão precisa considerar público, contexto, formato, legislação aplicável e objetivos comunicacionais.

Essa preocupação já faz parte da trajetória editorial e formativa da Candiá. Em parceria com a Cinese Audiovisual, a agência participou da realização de uma formação gratuita sobre audiovisual acessível baseada no Guia para Produções Audiovisuais Acessíveis do Ministério da Cultura. Curso gratuito sobre Audiovisual acessível contribui para inclusão e diversidade

Outro conteúdo da Candiá sobre a iniciativa pode ser consultado em Aprenda como tornar o audiovisual mais inclusivo.

Podcasts e conteúdos em áudio também precisam ser pensados para diferentes formas de acesso

Conteúdos exclusivamente sonoros podem excluir pessoas surdas ou com baixa audição.

Uma transcrição textual bem organizada amplia o acesso.

No caso de podcasts, entrevistas ou materiais educacionais, essa transcrição também pode melhorar a capacidade de consulta ao conteúdo, facilitar citações e permitir que uma informação seja encontrada por mecanismos de busca.

Aqui aparece um princípio importante.

Uma boa prática de acessibilidade frequentemente melhora a experiência de pessoas que não utilizam aquele recurso por causa de uma deficiência.

Isso não deve ser usado para apagar o motivo principal da acessibilidade.

O recurso existe, em primeiro lugar, para eliminar uma barreira concreta.

Os benefícios adicionais são consequência.

PDFs acessíveis exigem mais do que um arquivo visualmente organizado

Um PDF pode parecer impecável na tela e, ainda assim, ser extremamente difícil de utilizar com leitor de tela.

Isso ocorre porque a aparência visual não garante estrutura semântica.

Um documento acessível precisa considerar ordem de leitura, identificação adequada de títulos, listas, tabelas, links, imagens, idioma, campos de formulário e outros elementos.

Um erro bastante comum acontece na exportação.

A equipe cria um documento organizado em um programa de editoração, exporta para PDF e presume que a acessibilidade foi preservada automaticamente.

Nem sempre foi.

É necessário avaliar o resultado.

Em relatórios, cartilhas, pesquisas, editais, estudos técnicos e materiais educativos, essa preocupação é especialmente importante porque os próprios documentos frequentemente são o produto principal da comunicação.

Sites e landing pages: acessibilidade também está no código

Em peças de comunicação para web, o design visual corresponde a apenas uma das camadas.

Existe também uma estrutura que não é necessariamente visível.

Títulos precisam ser marcados como títulos, e não apenas parecer grandes.

Botões precisam funcionar como botões.

Campos de formulários precisam possuir rótulos.

Links precisam indicar destinos compreensíveis.

Menus devem poder ser utilizados sem depender exclusivamente do mouse.

O foco do teclado precisa permanecer visível.

Mensagens de erro precisam ser identificáveis.

Elementos interativos devem possuir nomes e funções compreensíveis por tecnologias assistivas.

É possível construir duas páginas visualmente idênticas e ter uma delas muito mais acessível que a outra simplesmente por causa da estrutura utilizada no código.

Por isso, acessibilidade digital não é responsabilidade exclusiva de uma pessoa designer.

Ela envolve design, desenvolvimento, conteúdo, UX, audiovisual, gestão e testes.

Ferramentas automáticas ajudam, mas não certificam acessibilidade

WAVE, Accessibility Insights, verificadores de contraste e outras ferramentas podem identificar problemas importantes.

São excelentes recursos para auditoria e desenvolvimento.

Mas existe um limite.

O W3C é explícito ao afirmar que nenhuma ferramenta, isoladamente, consegue determinar se um site atende integralmente aos padrões de acessibilidade. Parte dos critérios depende de avaliação humana.

Uma ferramenta pode identificar que existe um texto alternativo.

Ela não necessariamente saberá dizer se esse texto realmente comunica aquilo que a imagem deveria comunicar.

Pode identificar uma hierarquia de títulos tecnicamente válida.

Não necessariamente conseguirá avaliar se a organização da informação faz sentido para uma pessoa.

Pode encontrar determinados problemas de contraste.

Não substituirá a experiência real de navegar por uma interface utilizando tecnologias assistivas.

Por isso, um processo maduro combina ferramentas, conhecimento técnico, revisão manual e, sempre que possível, participação de pessoas com deficiência.

Acessibilidade não pode depender apenas de plugins

É tentador imaginar que um widget ou plugin consiga transformar automaticamente um site convencional em uma experiência plenamente acessível.

Esses recursos podem oferecer funções complementares úteis.

Mas não substituem decisões adequadas de arquitetura, código, conteúdo e design.

Se a ordem de leitura estiver errada, se um botão não possuir identificação programática adequada, se um vídeo não tiver recursos acessíveis ou se a informação existir apenas dentro de uma imagem, uma camada adicional de interface não resolve necessariamente o problema de origem.

A própria discussão sobre acessibilidade precisa sair da lógica de “instalar alguma coisa” e passar para a lógica de projetar adequadamente.

Linguagem clara também faz parte da inclusão

Nem toda barreira é visual, auditiva ou motora.

Conteúdos excessivamente burocráticos, cheios de termos técnicos, estruturas sintáticas longas e pressupostos não explicados também podem limitar compreensão.

Isso não significa transformar todo texto em frases mínimas ou eliminar complexidade.

Existe uma diferença importante entre linguagem simples e simplificação do pensamento.

Um conteúdo pode tratar de legislação, ciência, políticas públicas, meio ambiente ou direitos humanos com profundidade e, ao mesmo tempo, apresentar conceitos de forma compreensível.

Boa comunicação explica.

Contextualiza.

Cria hierarquia.

Introduz conceitos antes de utilizá-los.

Evita jargão quando ele não acrescenta precisão.

Quando o termo técnico é necessário, oferece significado.

Essa dimensão conversa diretamente com outro conteúdo da Candiá: Como fazer um plano de comunicação com linguagem inclusiva, que discute como planejamento, representatividade e escolhas linguísticas podem contribuir para uma comunicação menos excludente.

Acessibilidade digital e acessibilidade atitudinal

Existe uma dimensão da acessibilidade que nenhum software consegue resolver sozinho.

A acessibilidade atitudinal diz respeito às barreiras produzidas por comportamentos, preconceitos, expectativas e formas de organização.

Ela aparece quando acessibilidade é vista como gasto desnecessário.

Quando pessoas com deficiência não são incluídas em processos de decisão.

Quando alguém presume que “esse público não consome nosso conteúdo”.

Quando uma organização só considera acessibilidade diante de exigência contratual.

Quando profissionais especializados entram no projeto tarde demais para alterar decisões estruturais.

Por isso, acessibilidade é também cultura organizacional.

Uma equipe pode dominar todas as especificações técnicas e continuar reproduzindo barreiras se não compreender por que aquelas práticas existem.

O custo de adaptar depois

Existe ainda uma questão de gestão.

Acessibilidade inserida tardiamente costuma custar mais.

Um vídeo finalizado pode precisar de remontagem para receber audiodescrição de maneira adequada.

Uma identidade visual pode exigir novas combinações cromáticas.

Um site pronto pode precisar ter componentes reconstruídos.

Uma cartilha diagramada pode precisar ser reorganizada.

Um evento planejado sem acessibilidade pode descobrir, às vésperas da realização, que não reservou orçamento, equipe ou estrutura para recursos essenciais.

Planejar desde o início permite prever cronograma, orçamento, fornecedores, roteiro, formatos de entrega e responsabilidades.

Esse princípio é conhecido no campo do design como uma aproximação ao design universal: em vez de conceber uma experiência para um usuário abstrato e depois criar exceções, procura-se construir produtos, ambientes e serviços considerando desde o início a diversidade humana.

A própria Lei Brasileira de Inclusão inclui o desenho universal entre seus conceitos fundamentais.

Acessibilidade deve entrar no briefing

Se uma organização pretende produzir uma campanha, site, evento, vídeo, relatório ou publicação, algumas decisões deveriam aparecer já no briefing.

Quem são os públicos?

Quais recursos de acessibilidade serão necessários?

O projeto terá legendas acessíveis?

Libras?

Audiodescrição?

Versões textuais?

PDF acessível?

Descrição de imagens?

Como serão testados os conteúdos?

Quem será responsável pela revisão?

Existe orçamento reservado?

Qual é o fluxo de aprovação?

Essas perguntas deixam de transformar acessibilidade em um pedido emergencial feito no último dia do projeto.

Elas a transformam em método.

Comunicação acessível também é uma questão de marca

Há uma dimensão de branding que merece atenção.

Marcas constroem percepção não apenas pelo que dizem, mas pelas condições que criam para que pessoas possam se relacionar com elas.

Uma organização pode publicar manifestos sobre diversidade, pertencimento e direitos humanos.

Se o seu conteúdo não puder ser acessado por uma parte relevante das pessoas que afirma representar, existe uma contradição entre discurso e experiência.

Isso produz um problema de coerência.

E coerência é uma das bases da confiança.

Por outro lado, incorporar acessibilidade de maneira consistente demonstra que determinados valores foram transformados em processos.

A diferença é importante.

Uma marca pode declarar que acredita em inclusão.

Outra pode estruturar seus sites, eventos, conteúdos, vídeos e materiais para que a inclusão aconteça na prática.

São posições muito diferentes.

Acessibilidade e SEO podem se beneficiar das mesmas boas práticas — mas não são a mesma coisa

Existe uma sobreposição interessante entre acessibilidade, experiência do usuário e algumas práticas de otimização para mecanismos de busca.

Estrutura correta de títulos facilita navegação e compreensão.

Alternativas textuais ajudam diferentes tecnologias a interpretar imagens.

Transcrições tornam conteúdos audiovisuais também pesquisáveis em formato textual.

Links descritivos explicam melhor o destino.

Estrutura semântica melhora a organização da informação.

Mas é importante inverter uma lógica comum.

Não devemos criar acessibilidade porque “ajuda o SEO”.

Acessibilidade existe para garantir acesso.

Se determinada prática também melhora indexação, encontrabilidade ou usabilidade, esse é um benefício adicional.

Transformar acessibilidade exclusivamente em técnica de marketing seria perder justamente a dimensão que torna o tema relevante.

Erros comuns ao tentar tornar uma comunicação acessível

Ainda que cada projeto exija uma análise própria, alguns problemas aparecem de maneira recorrente:

  • tratar acessibilidade apenas no final do projeto;
  • escrever textos alternativos automáticos ou genéricos sem considerar o contexto da imagem;
  • confiar integralmente em legendas automáticas sem revisão;
  • utilizar cor como única forma de transmitir determinada informação;
  • produzir cards nos quais todos os dados relevantes existem apenas dentro da arte;
  • confundir legenda, Libras e audiodescrição como se fossem recursos equivalentes;
  • diagramar PDFs visualmente bonitos sem verificar sua estrutura;
  • depender exclusivamente de plugins ou ferramentas automáticas;
  • esquecer navegação por teclado, foco e semântica em sites;
  • considerar uma única deficiência como se ela representasse toda a diversidade de experiências;
  • produzir materiais acessíveis sem envolver profissionais especializados;
  • acreditar que cumprir uma checklist encerra a discussão.

Acessibilidade não é um estado que se alcança definitivamente.

É uma prática contínua de identificação e remoção de barreiras.

O papel de profissionais de acessibilidade

Há um ponto que costuma ser subestimado: acessibilidade é uma área de conhecimento.

Assim como organizações recorrem a profissionais de design, desenvolvimento, roteiro, fotografia, comunicação ou direito para resolver problemas que exigem conhecimento especializado, projetos acessíveis se beneficiam da participação de pessoas capacitadas para analisar barreiras e orientar soluções.

Uma consultoria de acessibilidade consegue interferir em decisões que começam muito antes da entrega final.

Pode revisar um briefing.

Contribuir com roteiro.

Orientar descrição de imagens.

Avaliar peças gráficas.

Dialogar com desenvolvimento.

Pensar audiodescrição.

Orientar recursos para eventos.

Revisar materiais.

Contribuir para testes.

E ajudar a equipe a compreender não apenas o que precisa mudar, mas por que precisa mudar.

Isso produz aprendizado institucional.

Na Candiá, acessibilidade é uma competência da equipe

Na Candiá, esse cuidado não é pensado como uma camada externa adicionada depois que a comunicação está pronta.

Contamos com equipe de acessibilidade integrada aos projetos, trabalhando em diálogo com comunicação, design, audiovisual, conteúdo e desenvolvimento.

Esse é um ponto importante para a forma como entendemos comunicação.

Não faria sentido trabalhar com cultura, direitos humanos, justiça socioambiental, terceiro setor e projetos de impacto considerando a acessibilidade apenas no momento da entrega.

Ela precisa participar da concepção.

A própria equipe apresentada pela Candiá inclui consultoria especializada em acessibilidade. Rita Louzeiro, Consultora de Acessibilidade da agência, é pedagoga e atua também com audiodescrição e design gráfico, articulando acessibilidade com questões como neurodiversidade, raça, classe e gênero.

Isso permite que a acessibilidade dialogue com a criação em vez de aparecer apenas como correção posterior.

Como a Candiá trabalha a acessibilidade na comunicação

Quando um projeto chega à Candiá, a pergunta não deveria ser apenas:

“Quais peças precisamos produzir?”

É igualmente importante perguntar:

quem precisa conseguir acessar, compreender e participar dessa comunicação?

A resposta interfere no planejamento.

Pode alterar roteiro.

Layout.

Arquitetura do site.

Cronograma.

Orçamento.

Captação audiovisual.

Formato das entregas.

Estratégia de publicação.

Revisão.

E até a forma como uma organização entende seus públicos.

É nesse ponto que uma equipe de acessibilidade faz diferença.

Em vez de receber o projeto pronto para “adaptar”, profissionais especializados podem contribuir para que menos barreiras sejam criadas desde o início.

A acessibilidade deixa de ser conserto.

Passa a ser projeto.

Acessibilidade digital não significa criar uma comunicação “para pessoas com deficiência”

Essa formulação pode parecer contraditória, mas é importante.

O objetivo não deveria ser produzir uma comunicação convencional para um público e outra, paralela, para pessoas com deficiência.

Sempre que possível, o melhor caminho é construir uma experiência na qual diferentes formas de acesso façam parte do mesmo sistema de comunicação.

Uma pessoa pode ler.

Outra pode ouvir.

Outra pode ampliar.

Outra pode utilizar Libras.

Outra pode navegar por teclado.

Outra pode utilizar um leitor de tela.

Outra pode combinar várias dessas possibilidades.

A comunicação continua sendo a mesma.

O que muda são os caminhos pelos quais ela pode ser acessada.

Essa é uma diferença entre simplesmente adaptar conteúdos e desenvolver uma cultura de acessibilidade.

Afinal, como produzir uma comunicação verdadeiramente acessível?

Talvez a resposta mais importante deste artigo seja também a menos imediata.

Não existe um recurso único capaz de tornar uma comunicação acessível.

Não é o texto alternativo sozinho.

Não é a legenda.

Não é a janela de Libras.

Não é a audiodescrição.

Não é o contraste.

Não é um plugin.

Não é uma certificação.

Acessibilidade resulta da combinação entre planejamento, conhecimento técnico, design, linguagem, tecnologia, escuta e participação.

Isso exige compreender que as pessoas não percebem e interagem com a informação da mesma maneira.

E essa diversidade não deveria aparecer no final do processo como exceção.

Deveria fazer parte do ponto de partida.

Para organizações que trabalham com impacto social, cultura, educação, direitos humanos, sustentabilidade ou participação pública, a questão se torna ainda mais evidente.

Se comunicação significa criar condições para que ideias circulem, pessoas participem e relações sejam construídas, então uma comunicação que exclui sistematicamente parte de seu público possui uma contradição na própria origem.

Na Candiá, acreditamos que acessibilidade precisa estar dentro da estratégia, do planejamento e da produção.

É por isso que contamos com equipe de acessibilidade, trabalhando junto às demais áreas da agência para pensar soluções desde a concepção dos projetos.

Porque tornar um conteúdo acessível depois que tudo está pronto é possível em muitos casos.

Mas existe uma diferença entre adaptar uma comunicação e conceber uma comunicação que já nasce considerando diferentes formas de estar, perceber e participar do mundo.

É nessa segunda direção que queremos trabalhar.

Comunicação acessível não é uma versão alternativa da boa comunicação. É parte do que faz uma comunicação ser, de fato, boa.

Valéria Diniz de Amorim

Especialista em Comunicação, Marketing, Eventos, Branding e Growth, atua no mercado desde 2008, desenvolvendo projetos que conectam cultura, comunicação popular, meio ambiente, direitos humanos e empreendedorismo.

Em 2016, fundou a Candiá Produções, agência 360º voltada para o terceiro setor e causas socioambientais, criando estratégias personalizadas que geram soluções assertivas e experiências memoráveis para marcas, empresas e organizações.

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Trabalhei por alguns anos com a Candiá e só tenho elogios para destacar! As entregas são sempre muito assertivas e a equipe está sempre disposta a ouvir e ajustar o que for preciso. Indico de olhos fechados!
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Matheus Nascimento
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Melhor produtora de design para projetos da região!!
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Equipe muito prestativa. é importante ter profissionais como ela. Indico a todes.
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Valéria é uma pessoa talentosa e competente. É comprometida com prazos e acordos estipulados e atenta às necessidades e particularidades de cada projeto. Com satisfação, recomendo o trabalho desenvolvido pela Candiá.
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Alexandre Almeida
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Muito bom
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